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O mercado mundial de suplementos deve saltar de US$ 209 bi (2025) para US$ 393 bi até 2033. Veja o que a ciência realmente sustenta e como comprar com critério, sem pagar por esperança.
Entre em qualquer farmácia hoje e repare onde o dinheiro se acumula. A prateleira de suplementos cresceu, ganhou iluminação própria e rótulos que prometem energia, imunidade, foco e longevidade. O que antes era um corredor discreto virou vitrine — e não por acaso.
Os números explicam o brilho. O mercado global de suplementos alimentares foi estimado em US$ 209,52 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 393,56 bilhões até 2033, um avanço de 8,1% ao ano, segundo a consultoria Grand View Research. É uma das indústrias de consumo que mais crescem no planeta.
A pergunta que o marketing não faz é simples: quem aprovou tudo isso antes de chegar ao seu carrinho? A resposta incomoda. Nos Estados Unidos, a FDA não avalia nem aprova suplementos antes da venda — a responsabilidade pela segurança é do próprio fabricante, e a fiscalização vem depois, com o produto já na prateleira.
No Brasil, a lógica é parecida. A Anvisa trata suplemento como alimento, não como medicamento. Por lei, ele não pode prometer curar, tratar ou prevenir doenças. Quando um rótulo ou um influenciador sugere o contrário, está pisando na fronteira entre o permitido e a propaganda enganosa.
Aqui está o mecanismo que sustenta o setor: o ônus da prova se inverte. No remédio, o estudo vem antes da venda. No suplemento, muitas vezes a promessa chega primeiro e a evidência corre atrás — quando corre. É um modelo que fatura com a esperança do consumidor mais rápido do que a ciência consegue confirmar ou desmentir.
Isso não significa que nada funcione. Significa que é preciso separar o que tem base do que é só embalagem. A creatina é o melhor exemplo dessa fronteira. Barata e das mais estudadas, tem benefício comprovado para força e massa muscular — e, mais recentemente, virou promessa de "turbinar o cérebro".
O que a ciência de fato mostra? Uma meta-análise publicada em 2024 na revista científica Frontiers in Nutrition, reunindo 16 ensaios clínicos randomizados e 492 participantes, encontrou melhoras modestas em memória e velocidade de processamento com creatina. Mas não achou efeito significativo sobre a função cognitiva geral nem sobre a função executiva.
Os próprios autores classificam a evidência como preliminar e de certeza baixa a moderada, com efeitos maiores em pessoas com alguma doença, mulheres e adultos de 18 a 60 anos. Traduzindo: existe um sinal real, mas ele é pequeno e ainda pede estudos maiores. O marketing, porém, prefere transformar "modesto e preliminar" em "milagre".
Quem paga a conta dessa distância entre a promessa e o dado? Em geral, quem tem menos tempo de investigar: idosos em busca de vitalidade, pais preocupados com a imunidade dos filhos, jovens perseguindo desempenho. Gasta-se com o que não se precisa — e, em alguns casos, arrisca-se excesso, interação com remédios e até contaminação em produtos sem controle de qualidade.
A boa notícia é que dá para comprar com critério. Alguns passos práticos ajudam:
Vale o lembrete responsável: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de médico, nutricionista ou farmacêutico. Antes de iniciar qualquer suplemento, converse com um profissional de saúde — especialmente se você usa medicamentos, está grávida ou tem alguma condição crônica.
No fim, o suplemento certo, na dose certa e para a pessoa certa, pode ajudar. O que a indústria de US$ 200 bilhões vende melhor, porém, não é o nutriente — é a dúvida. E é justamente aí que o leitor informado leva vantagem: quando se entende o mecanismo por trás da prateleira, deixa-se de pagar por esperança e passa-se a pagar por evidência. Conhecimento é poder — inclusive na hora de decidir o que colocar dentro do próprio corpo.
Fontes: Grand View Research (Dietary Supplements Market Size Report, 2026–2033); Frontiers in Nutrition (meta-análise sobre creatina e função cognitiva em adultos, 2024); U.S. Food and Drug Administration (Information for Consumers on Using Dietary Supplements).
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-24