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Pesquisas no Brasil e no mundo mostram jovens bebendo menos. Entenda o que move a mudança, quem lucra com o "sem álcool" e o que isso muda na sua vida social.
Existe uma cena que há dez anos causaria estranheza e hoje passa despercebida: um grupo de vinte e poucos anos, numa mesa de bar, e metade dos copos sem uma gota de álcool. Ninguém precisa se justificar. Ninguém é o "chato da festa". Recusar a cerveja deixou de ser um constrangimento e virou apenas mais uma escolha.
Isso não é impressão. É um comportamento medido. Nos Estados Unidos, o instituto Gallup registrou que a parcela de adultos com menos de 35 anos que dizem beber caiu de 72% no início dos anos 2000 para 62% no período 2021-2023 — dez pontos percentuais em duas décadas. A geração que herdaria o boteco está, aos poucos, devolvendo a chave.
No Brasil, o movimento tem a mesma direção. O relatório Covitel, de 2023, apontou que a fatia de jovens de 18 a 24 anos que bebem três vezes ou mais por semana recuou de 10,7% antes da pandemia para 8,1% — abaixo, inclusive, do índice de gente na faixa dos 45 aos 54 anos. Não é abstinência total; é moderação deliberada.
Onde há mudança de hábito, há dinheiro se movendo. A consultoria IWSR calculou que as vendas globais de bebidas sem álcool ou de baixo teor alcoólico chegaram a cerca de US$ 11 bilhões em 2022, um salto de aproximadamente 37% em relação a 2018. O corredor do "zero álcool" no mercado não nasceu por acaso: foi construído para atender a essa geração.
Aqui aparece a camada mais funda da história. O que faz um jovem beber menos não é uma campanha isolada, é uma troca de valores. O porre deixou de ser símbolo de maturidade ou de diversão garantida. Entrou no lugar uma mistura de cuidado com a saúde, aperto no orçamento e uma vida social que, em boa parte, migrou para a tela — onde ficar visivelmente bêbado tem um custo de imagem que ninguém quer pagar.
É por isso que a indústria não brigou contra a onda: ela se acomodou dentro dela. Vinícolas lançaram linhas sem álcool, marcas tradicionais criaram versões coloridas e leves de olho no público jovem, e o "mocktail" — o coquetel sem destilado — saiu do nicho e entrou na carta dos bares. O consumidor que bebe menos não é um cliente perdido; virou um cliente novo, muitas vezes disposto a pagar mais caro pela versão "consciente".
Documentar, porém, exige mostrar o outro lado. Beber menos nem sempre significa viver melhor. Nos Estados Unidos, parte da queda no álcool coincidiu com o avanço da cannabis legalizada — uma substância trocou de lugar com a outra. E o próprio serviço de saúde pública americano alerta que o tempo presencial entre amigos despencou nos últimos vinte anos, sobretudo entre os mais jovens. Às vezes, o copo vazio é sinal de menos festa, não de mais equilíbrio.
Quem sente esse movimento na pele é um conjunto amplo de gente. Os próprios jovens, que ganharam liberdade para dizer "não" sem explicação. Os bares e a indústria, que precisam reinventar o cardápio. E qualquer pessoa que convive socialmente, porque a regra invisível da mesa — a de que todo mundo bebe — está sendo reescrita em tempo real.
Para o leitor, a notícia prática é simples: a pressão para acompanhar a rodada está mais fraca do que nunca. Escolher beber pouco, ou nada, ficou socialmente barato. E, se a decisão for reduzir, alguns passos ajudam a fazer isso sem virar assunto:
1. Chegue com um plano de quantidade, não de proibição — decidir antes evita a conta que chega no dia seguinte. 2. Tenha sempre um copo na mão: água com gás e limão ou um mocktail cortam a pergunta "por que você não está bebendo?". 3. Intercale cada dose alcoólica com um copo de água. 4. Combine com um amigo que também quer moderar — a pressão social funciona nos dois sentidos. 5. Repare em como você acorda no dia seguinte; o corpo costuma ser o argumento mais honesto.
No fim, o que os dados desenham não é uma geração puritana, e sim uma geração que renegocia o preço do prazer. Ela pesa a ressaca, o custo, a imagem e o tempo — e conclui que nem sempre vale. A indústria entendeu o recado e trocou de balcão. A pergunta que fica para cada um é mais pessoal: quando você bebe, é por vontade sua ou só porque o copo estava ali?
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde. Se o consumo de álcool tem causado sofrimento a você ou a alguém próximo, procure ajuda médica ou serviços especializados.
Fontes: Gallup (consumo de álcool por faixa etária, EUA); TIME Magazine; Relatório Covitel 2023 (Brasil); IWSR (mercado global de bebidas sem álcool); pesquisa "Copo Meio Cheio", Go Magenta; U.S. Surgeon General.
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-28