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O Brasil acumulou US$ 34,4 bi de superávit comercial em dólares, mas perdeu US$ 17,6 bi pelo canal financeiro. O que explica o real depreciado.
Os dados de fluxo cambial divulgados pelo Banco Central ajudam a explicar uma dúvida recorrente de quem acompanha o câmbio: se o Brasil vende muito mais do que compra lá fora, por que o dólar não cai?
Até 3 de julho, o fluxo cambial total de 2026 era positivo em US$ 16,824 bilhões. Dentro desse total, porém, há dois movimentos de sinais opostos. O fluxo comercial foi fortemente positivo, somando US$ 34,423 bilhões no ano. Já o canal financeiro registrou saídas líquidas de US$ 17,599 bilhões.
Ou seja: metade do dólar que entra pela exportação sai pela porta financeira.
O fluxo financeiro reúne investimentos de portfólio, remessas de lucros e dividendos, empréstimos internacionais, aplicações de estrangeiros em renda fixa e variável e operações de investimento direto. Diferentemente do comércio, que responde a safras, contratos e preços de commodities, esse canal responde a percepção de risco e diferencial de juros.
Quando o investidor estrangeiro reduz posição em ativos brasileiros, ou quando empresas multinacionais remetem resultados às matrizes, o efeito no câmbio é o mesmo de uma importação: demanda por dólar.
As projeções de mercado refletem esse quadro. A mediana para o câmbio ao fim de 2026 permaneceu em R$ 5,20 por dólar, ante R$ 5,15 quatro semanas antes. As estimativas ficaram estáveis na semana, mas seguem apontando um real mais depreciado do que há um mês.
É um movimento discreto na aparência e relevante na prática. Cinco centavos de diferença na mediana significam bilhões em custo de importação ao longo de um ano, e realimentam a inflação de bens comercializáveis.
Há uma intuição comum de que balança comercial forte deveria produzir moeda forte. A intuição falha porque o câmbio não é determinado apenas pelo saldo de mercadorias, mas pelo saldo de todas as operações que atravessam a fronteira. Um país pode exportar muito e ainda assim ter moeda pressionada se o capital financeiro estiver saindo.
O diferencial de juros explica boa parte do fenômeno. Com o Banco Central iniciando seu ciclo de queda da Selic e o Federal Reserve discutindo alta, a atratividade relativa do carrego em real diminui, e parte do capital busca outros destinos.
Para empresas importadoras ou com dívida em moeda estrangeira, o dado sugere manter proteção cambial em vez de apostar em valorização do real puxada pelo agronegócio. Para quem exporta, a depreciação melhora a receita em reais, mas não compensa integralmente barreiras tarifárias.
E para o leitor comum, a lição é conceitual: o preço do dólar diz menos sobre a força da economia brasileira e mais sobre onde o capital global prefere estar hoje.
Fonte: Jornal de Brasília
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-28