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A restrição ao celular chegou a 92% das escolas brasileiras e o MEC relata mais atenção e menos conflito. Veja o que os dados dizem, o que ainda falta e como transformar a regra em hábito também em casa.
O sinal bate e, pela primeira vez em muito tempo, o barulho que enche a sala não vem das telas. Vem das vozes. Alunos conversando de frente uns para os outros, professores retomando a palavra sem competir com a notificação no colo de cada estudante. A cena, que soaria nostálgica há dois anos, virou o cotidiano de milhares de escolas brasileiras.
O motivo tem nome e número. A Lei nº 15.100, sancionada em janeiro de 2025, restringiu o uso de celulares na educação básica e passou a valer na prática nas escolas ao longo de 2026. Um ano depois, ela alcançou 92% das instituições de ensino do país, segundo levantamento do Ministério da Educação feito com 8.189 escolas, em parceria com o Inep e o Instituto Alana.
Os números que os diretores relatam são expressivos. Entre os gestores ouvidos, 97% notaram que os estudantes participam mais das atividades, 95% perceberam melhora na atenção durante as aulas e outros 95% observaram mais convívio presencial no recreio. Além disso, 88% apontaram queda em conflitos e agressões digitais, e 86% associaram a regra a menos ansiedade entre os alunos.
É preciso ler esses dados com honestidade. Eles medem a percepção de quem dirige a escola, não a nota da prova nem o cérebro do estudante sob exame. São um retrato do clima da sala, valioso, mas ainda uma impressão, não uma medição definitiva de aprendizagem. O MEC segue apurando os efeitos de fundo; o que já se pode afirmar é que o ambiente mudou.
A pergunta mais interessante vem depois do número: por que um objeto de bolso pesa tanto? A resposta está no que ele disputa. A atenção é o recurso mais escasso de uma sala de aula, e os aplicativos que moram no telefone foram desenhados, com talento e orçamento, para capturá-la. O que competia com o professor não era um aparelho, era uma indústria inteira brigando pelo foco da criança.
O Brasil não está sozinho nesse movimento. Um relatório da UNESCO aponta que 114 países já restringem celulares nas escolas, o equivalente a 58% dos sistemas educacionais do mundo. O salto é recente e veloz: eram 24% em meados de 2023 e 40% no início de 2025. Bolívia, Costa Rica, Croácia, Geórgia, Maldivas e Malta entraram nessa lista só no último ano.
Aqui entra a nuance que separa a boa política do reflexo fácil. A própria UNESCO adverte que proibir, sozinho, não é solução mágica. O ganho real aparece quando a escola usa a regra para ensinar um uso consciente da tecnologia, e não apenas para trancá-la na gaveta. Tirar o celular abre uma janela; o que se coloca nela é a parte que importa.
Há também o atrito de quem aplica a lei no chão da escola. No mesmo levantamento, 39% dos gestores relataram dificuldade em fazer os alunos cumprirem a regra, e outros 39% disseram não ter estrutura segura para guardar os aparelhos durante o dia. A lei é o começo da conversa, não o seu ponto final, e depende de investimento e método para se sustentar.
Para as famílias, o recado é direto: a escola deu o exemplo, mas o desafio maior continua depois do portão. De pouco adianta a criança passar seis horas concentrada e voltar para um jantar em que todos, adultos inclusive, estão de cabeça baixa na tela. A coerência de casa é o que decide se o ganho vira hábito ou vira exceção das 7h às 13h.
Se você quer transformar a regra da escola em rotina em casa, alguns passos ajudam:
1) Defina zonas e horários sem tela, como a mesa das refeições e a primeira hora antes de dormir, e valha a regra para toda a família, não só para os filhos. 2) Crie um ponto fixo de guarda dos aparelhos à noite, longe do quarto, para proteger o sono. 3) Converse sobre o conteúdo, não só sobre o tempo: pergunte o que a criança viu, seguiu e sentiu. 4) Ofereça a alternativa antes de cobrar a ausência, um livro, um jogo de tabuleiro, um esporte, para que o silêncio da tela não vire tédio. 5) Dê o exemplo, porque nenhuma regra sobrevive à incoerência dos pais.
No fim, esta não é uma história sobre demonizar a tecnologia, e sim sobre quem controla a atenção das crianças, elas mesmas ou os aplicativos. A lei de 2025 fez o que uma boa política pode fazer: devolveu à escola o poder de dizer quando o mundo digital entra. O que fica em jogo agora é se as famílias vão aproveitar a janela que se abriu, ou deixá-la fechar sozinha.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a orientação de educadores, pediatras ou profissionais de saúde mental para casos específicos.
Fontes: Ministério da Educação (MEC) e Inep, pesquisa nacional sobre a Lei nº 15.100/2025; UNESCO, Relatório de Monitoramento Global da Educação (GEM) sobre restrição de celulares nas escolas.
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-24