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Manchetes decretam a "morte" do veganismo. Os dados contam outra história: o que encolheu foi a carne vegetal ultraprocessada, não o ato de comer mais plantas — mais barato e melhor amparado pela ciência.
De tempos em tempos, uma manchete decreta o fim do veganismo. Fábricas de "carne vegetal" fecham, marcas somem da prateleira e a conclusão fácil aparece: comer plantas foi só uma moda passageira. É meia verdade — e a metade que falta é justamente a que interessa a quem cozinha em casa.
Comecemos pelo fato documentado. Nos Estados Unidos, o mercado de alimentos à base de plantas movimentou US$ 7,9 bilhões no varejo em 2025, com queda de 2% em faturamento e 3% em unidades vendidas, segundo o Good Food Institute (GFI). A pior parte é bem específica: a categoria de "carne e frutos do mar" vegetais caiu 10% em faturamento e 11% em volume, e hoje representa apenas 1,4% das vendas de carnes embaladas.
Repare que o tombo não é uniforme. O leite vegetal, maior fatia do setor, recuou modestos 2% e ainda ocupa 13% de todo o mercado de leites. E há um dado que desmonta o clima de velório: 60% dos lares americanos compraram algum alimento à base de plantas em 2025, praticamente o mesmo do ano anterior, sendo 78% compradores repetidos.
Ou seja, o hábito não evaporou — um formato de produto perdeu fôlego. Não à toa, analistas de mercado passaram a tratar 2025 e 2026 como uma fase de amadurecimento, não de morte. Em análise de março de 2026, a consultoria Future Market Insights descreveu a virada como a passagem "de um crescimento movido a hype para uma fase mais madura, guiada por desempenho". São projeções de mercado, não certezas — mas o recado é o mesmo em várias delas.
Aqui entra a camada mais profunda, a que as manchetes pulam. O que desabou não foi "comer plantas". Foi um modelo de negócio: a carne vegetal ultraprocessada, vendida a preço premium, sustentada por rodadas de investimento e pela promessa de imitar o hambúrguer, com uma longa lista de ingredientes. Esse produto foi desenhado para a prateleira e para o investidor — e é ele que está apanhando.
Siga o dinheiro e a confusão se dissolve. Quem apostou bilhões em réplicas industriais de carne precisa de margem, marketing e espaço no supermercado. Já o feijão, a lentilha, o grão-de-bico e a couve nunca precisaram de marca nem de campanha — e por isso não aparecem em relatório de "queda de vendas". O vencedor durável desse mercado é invisível justamente porque é barato e sem embalagem chamativa.
Para o leitor brasileiro, a distinção é quase óbvia quando dita em voz alta. O nosso arroz com feijão já é um prato à base de plantas de altíssimo custo-benefício, montado muito antes de qualquer startup prometer o "bife do futuro". Comer mais vegetais, aqui, raramente significa gastar mais; costuma significar o contrário.
O risco real é de ordem prática: confundir "aderir a plantas" com "comprar o produto caro da moda" empurra a família para longe do que é simples e acessível. Quem desiste do hambúrguer de laboratório e conclui que "vegetal é caro" joga fora o barato — que sempre esteve no mercado municipal, não no freezer premium.
E o que a ciência sugere sobre o prato? Há consenso amplo, embora não seja uma receita única para todos, de que dietas com mais leguminosas, hortaliças, frutas e grãos integrais, e menos ultraprocessados, se associam a melhores marcadores de saúde ao longo do tempo. Vale um lembrete honesto: isto é conteúdo informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista, que deve considerar o seu caso.
Na prática, dá para comer mais plantas sem seguir modismo nem estourar o orçamento. Alguns passos simples: (1) faça do feijão, lentilha ou grão-de-bico a base de uma refeição por dia — proteína barata e fibra; (2) troque parte da carne do prato por leguminosas em vez de comprar um "substituto" industrializado; (3) priorize o que é da estação na feira, onde o vegetal sai mais em conta; (4) leia o rótulo: menos ingredientes e menos ultraprocessamento valem mais que o selo "plant-based"; (5) cozinhe em quantidade e congele porções, para o barato não virar refém da pressa.
O que muda para você, no fim, é a lente. A curva que despencou nos gráficos é a de um negócio específico; a curva silenciosa de comer mais vegetais de verdade não cabe em planilha de vendas — mas cabe na sua mesa, e por um preço menor. Ler a queda como "fim do veganismo" é confundir o marketing com o alimento.
Conhecimento é poder: separar o que a indústria vende do que o corpo precisa é, aqui, também uma decisão de bolso.
Fontes: Good Food Institute (GFI) — dados de varejo de alimentos à base de plantas, EUA, 2025; FoodNavigator, "Are we wrong about plant-based's decline?", 12 de março de 2026; Future Market Insights e Market Research Future (projeções de mercado citadas na reportagem).
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-28