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O Brasil teve 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, a menor taxa desde 2012. Ainda assim, feminicídios e mortes por ação policial subiram. Entenda o que a média esconde e o que muda para você.
Na quinta-feira, 24 de julho, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 com um dado que o país esperava havia mais de uma década. A taxa de mortes violentas intencionais caiu para 19,1 por 100 mil habitantes — a primeira vez abaixo de 20 desde o início da série histórica, em 2012.
Os números são expressivos. Foram 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma queda de 8,2% em relação às 44.127 registradas em 2024. Dentro desse total, o homicídio doloso recuou 10%, o latrocínio (roubo seguido de morte) caiu 17% e a lesão corporal seguida de morte diminuiu 15,2%.
Para dimensionar o avanço, vale lembrar de onde o país partiu. Em 2012, a taxa era de 27,7 mortes por 100 mil. A diferença entre aquele patamar e o de agora se traduz em milhares de pessoas que, ao longo de um ano, não foram mortas — filhos, mães, trabalhadores, vizinhos. É uma boa notícia real, e o jornalismo sério não a diminui.
Mas a mesma pesquisa que celebra a queda cobra que se leia o número inteiro. Enquanto a curva geral desceu, duas outras subiram na contramão. E são justamente elas que revelam quem o resultado agregado deixa para trás.
A primeira exceção é o feminicídio. Foram 1.571 mulheres mortas por razões de gênero em 2025, alta de cerca de 4% sobre o ano anterior — uma média de 4,3 assassinatos por dia. O Anuário aponta ainda que 44,4% de todas as mulheres assassinadas no país o foram por questões de gênero, e que as tentativas de feminicídio cresceram 5,9%, chegando a 4.189 casos.
Esse recorte tem cor e endereço. Segundo o relatório, mulheres negras representaram 65,1% das vítimas de feminicídio, e a faixa de 25 a 29 anos concentrou a maior parte dos casos. Em outras palavras: a maré de queda da violência não alcançou as mulheres na mesma medida em que alcançou o restante do país.
A segunda exceção diz respeito ao próprio Estado. As mortes decorrentes de intervenção policial subiram 5,4% e somaram 6.602 casos em 2025. Isso significa que aproximadamente uma em cada seis mortes violentas intencionais no Brasil teve a mão de um agente de segurança pública — 16,2% do total. O Anuário registra o dado como alerta, não como detalhe.
Há também uma geografia que a média nacional apaga. As dez cidades com as maiores taxas de mortes violentas do país estão todas no Nordeste. No topo aparecem Maranguape (CE), com 100,3 mortes por 100 mil, Eunápolis (BA), com 85,1, e Maracanaú (CE), com 80,7 — patamares várias vezes acima da média brasileira.
É aí que mora o significado da história. Uma média que cai é um retrato do país inteiro somado; ela não descreve a vida de quem mora nos bairros mais atingidos, nem de quem convive com um agressor dentro de casa. Para essas pessoas, a estatística nacional pode melhorar sem que o próprio risco mude.
Para o leitor, fica uma lição prática de como interpretar qualquer número de criminalidade: a taxa nacional serve para medir tendências de longo prazo, mas não substitui o dado do seu município e do seu bairro, geralmente publicado pelas secretarias estaduais de segurança. Desconfie de quem usa a média do país para afirmar que "sua" rua ficou mais segura.
E, no caso específico de quem convive com risco de violência doméstica, o relatório reforça a urgência de conhecer os canais de proteção, que funcionam antes de a agressão virar estatística:
• Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher, gratuita, sigilosa e 24 horas, para orientação e denúncia.
• Medida protetiva de urgência — pode ser pedida em delegacia (de preferência a Delegacia da Mulher) sem custo e sem advogado, obrigando o agressor a manter distância.
• Boletim de ocorrência — presencial ou pela delegacia eletrônica do seu estado, é o que aciona a Lei Maria da Penha.
• Rede de apoio — informar pessoas de confiança e ter um plano de saída combinado reduz o isolamento, que é o principal aliado do agressor.
• Risco imediato — ligue 190. A polícia é obrigada a atender ocorrência de violência doméstica.
O Anuário 2026, no fim, entrega as duas coisas ao mesmo tempo: a prova de que a violência letal pode, sim, ser reduzida quando há política pública continuada — e o lembrete de que uma boa média é um começo, não um veredito. O número que cai mede o país; quem ainda morre mede o que falta fazer.
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou de segurança. Em situação de risco imediato, ligue 190; para orientação sobre violência contra a mulher, ligue 180.
Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), via Jornal do Brasil (24/07/2026) e Agência Pública (07/2026).
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-27