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Os manguezais do Brasil guardam 1,9 bilhão de toneladas de CO₂ e podem valer bilhões em créditos de carbono. Entenda o 'carbono azul' — e quem corre o risco de ficar de fora.
Visto de longe, o mangue parece terra de ninguém: lama escura, raízes tortas, cheiro forte. Durante décadas, foi tratado exatamente assim — área a ser aterrada, drenada ou virar viveiro de camarão. A ciência agora conta outra história: aquele lodo é um dos cofres de carbono mais eficientes do planeta.
O Brasil abriga o maior sistema contínuo de manguezais do mundo, na costa amazônica. Um levantamento do projeto Cazul, da ONG Guardiões do Mar em parceria com a Fundação Grupo Boticário, mapeou 1.390.664 hectares de mangue ao longo do litoral brasileiro. Juntos, eles guardam cerca de 1,9 bilhão de toneladas de dióxido de carbono.
O número não é um chute. O estudo, apresentado na COP16 em 2024, cruzou imagens de satélite no Google Earth Engine com dados do Ibama para estimar a área conservada e o estoque de carbono. É uma fotografia — com margem de erro, como toda estimativa —, mas suficiente para mudar o jeito de olhar para o mangue.
Por que a lama guarda mais carbono que muita floresta? A resposta está na água. O solo encharcado e sem oxigênio do manguezal quase não deixa a matéria orgânica se decompor. O carbono que a planta puxa do ar fica preso no sedimento por séculos, em vez de voltar para a atmosfera. É o que os cientistas chamam de "carbono azul".
Esse conceito saiu dos laboratórios e entrou na agenda pública. Em junho de 2026, no Dia Mundial dos Oceanos, entidades como Conservação Internacional, WWF-Brasil e SOS Oceano colocaram o carbono azul no centro do debate climático. O oceano, lembram elas, absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e produz mais da metade do oxigênio que respiramos.
Onde há carbono estocado, forma-se mercado. A lógica é simples: uma empresa que polui pode "compensar" parte de suas emissões pagando para que uma floresta ou um mangue continue de pé. Esse pagamento vira um crédito de carbono. Pelo cálculo do Cazul, os mangues brasileiros valeriam hoje cerca de R$ 48,9 bilhões nesse mercado — e até R$ 1,067 trilhão num cenário regulado.
Aqui começa a parte que raramente aparece na manchete. Crédito de carbono é dinheiro de verdade, e dinheiro atrai intermediário. Em vários países, projetos mal desenhados encheram o bolso de consultorias e atravessadores enquanto as comunidades que vivem no ecossistema ficaram com migalhas — ou foram empurradas para fora dele. O ativo é coletivo; o lucro, nem sempre.
E as comunidades não são um detalhe. Cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem dos ecossistemas marinhos e costeiros brasileiros. O mangue é o berçário do caranguejo, do siri e do peixe que sustentam a renda e a mesa dessas famílias. Se o carbono do mangue virar cifra sem que elas participem da decisão e da receita, repete-se um roteiro antigo: o território dá o valor, e outro embolsa.
Há também o lado da destruição. Cada hectare de mangue aterrado para porto, condomínio ou viveiro não só deixa de sequestrar carbono — devolve para a atmosfera parte do que estava guardado há séculos. Destruir mangue é, ao mesmo tempo, perder um sumidouro e criar uma emissão. O prejuízo climático é duplo.
O que isso muda para quem vive longe do litoral? Muito. É o mesmo carbono que regula o clima que afeta a sua conta de luz, o preço do seu arroz e a chuva na sua cidade. Manguezal conservado é seguro climático barato — e o Brasil tem o maior do mundo praticamente de graça, desde que não o destrua antes de aprender a cuidar dele.
Como acompanhar e ajudar a proteger esse patrimônio:
O mangue passou a vida sendo subestimado. Agora que a ciência mostrou seu valor, o Brasil tem uma escolha à frente: transformar essa lama em renda justa para quem vive dela e em freio real contra a crise climática — ou repetir a velha história do recurso enorme que enriquece poucos e some antes de beneficiar muitos. O carbono já está lá. Falta decidir para quem ele vai trabalhar.
Este conteúdo é informativo e analítico e não constitui recomendação de investimento. Valores de crédito de carbono são estimativas e variam conforme o mercado e a regulação.
Fontes: Agência Brasil / EBC — "Carbono azul ganha espaço na agenda climática dos oceanos" (8/6/2026); Fundação Grupo Boticário e Projeto Cazul / Guardiões do Mar — estudo "Oceano sem Mistérios: Carbono azul dos manguezais", apresentado na COP16 (2024).
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-25