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Brasil tem matriz 84,63% renovável, mas cortou 17,2% da geração solar e eólica no início de 2026. Entenda o curtailment: quem ganha, quem perde e quem paga a conta.
O Brasil nunca produziu tanta energia limpa. E nunca desperdiçou tanta. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo — e é no espaço entre elas que se esconde uma disputa de bilhões que vai chegar, mais cedo ou mais tarde, à sua conta de luz.
Em 1º de janeiro de 2026, a matriz elétrica brasileira alcançou 215,9 gigawatts (GW) de capacidade instalada, com 84,63% vindos de fontes renováveis, segundo o relatório Ralie da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). A agência projeta acrescentar outros 9,1 GW em 2026 — um salto de 23,4% frente a 2025, puxado por sol e vento.
Só que uma fatia crescente dessa energia não chega a lugar nenhum. Entre janeiro e abril de 2026, o país cortou 2.843 megawatts (MW) médios de geração solar e eólica — 17,2% de tudo o que as usinas afetadas poderiam ter produzido, contra 15,3% no mesmo período de 2025. Em 2025 inteiro, 20,6% da energia solar e eólica disponível foi jogada fora, o equivalente a cerca de R$ 6 bilhões, segundo cálculo da consultoria Volt Robotics.
O nome técnico disso é curtailment, ou constrained-off: a usina está pronta para gerar, mas o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) manda desligar. Não é defeito do equipamento — é limite do sistema.
Aqui começa o mecanismo. O ONS aponta três motivos para os cortes no início de 2026: sobreoferta, quando há mais energia do que demanda para consumir (1.772 MW médios); confiabilidade elétrica, para manter o sistema seguro (651 MW); e indisponibilidade externa, ou seja, falta de linha de transmissão para escoar a energia (420 MW). Traduzindo: construímos usinas mais rápido do que os fios capazes de carregar o que elas produzem.
O problema tem CEP. O Nordeste concentrou 2.233 dos 2.843 MW cortados — com Ceará, Bahia, Piauí e Pernambuco à frente. É a região que mais atraiu investimento em sol e vento, e é a que mais vê a energia parar no meio do caminho. O corte pesa mais sobre a eólica (1.806 MW) do que sobre a solar (1.037 MW).
Quem paga por essa energia que não foi gerada? Essa é a pergunta de R$ 6 bilhões. Até aqui, o gerador tinha direito a ser ressarcido pela energia barrada — o cálculo é a energia não gerada multiplicada pelo preço da energia no mercado de curto prazo (o PLD), reconhecido pela ANEEL desde a Resolução 927/2021. Esse ressarcimento é bancado por um encargo do sistema (o ESS) que, no fim da linha, é diluído na tarifa de todos os consumidores.
Em 20 de janeiro de 2026, a ANEEL apertou o freio. A diretoria da agência suspendeu por 90 dias o pagamento dos ressarcimentos por constrained-off a eólicas e solares, alegando a necessidade de reorganizar as regras enquanto o setor não define um novo marco — a Lei 15.269/2025 chegou a prever cobertura retroativa desses eventos desde setembro de 2023. Em maio, a suspensão foi prorrogada.
É aqui que os interesses se chocam à luz do dia. De um lado, os geradores, que financiaram usinas contando com a promessa de vender tudo o que produzem e agora amargam a conta parada. De outro, a ANEEL, preocupada em não repassar automaticamente esse custo à tarifa. No meio, o Ministério de Minas e Energia (MME), que avalia garantir o ressarcimento, enquanto parte da própria ANEEL resiste. É uma queda de braço sobre quem segura o prejuízo: o investidor ou o pagador de conta de luz.
Análise: o recorde de energia limpa é real e é uma boa notícia — mas ele vira manchete com muito mais facilidade do que a linha de transmissão que faltou ser construída. Um país que gera 84% de eletricidade renovável e ao mesmo tempo descarta um quinto do sol e do vento disponíveis não tem um problema de geração; tem um problema de planejamento, de fios e de regra. Anunciar usina rende foto; puxar cabo, não.
Para você, o que muda? No curto prazo, a disputa define se o custo do desperdício aparece na sua fatura via encargos ou fica com o gerador. No médio prazo, o risco é mais silencioso: se investir em sol e vento no Brasil passar a significar “gerar e talvez não receber”, o próximo leilão de energia sai mais caro para compensar a insegurança — e essa conta também é sua. Vale acompanhar as consultas públicas da ANEEL sobre curtailment: é ali, e não no anúncio do recorde, que o seu bolso está em jogo.
Energia que não pode ser transmitida é riqueza que evapora antes de virar luz. O Brasil provou que sabe gerar; o teste dos próximos anos é provar que sabe entregar — e decidir, com transparência, quem arca pelo que se perde no caminho.
Fontes: ANEEL (Relatório Ralie, janeiro/2026, via Poder360); Canal Solar (dados de curtailment jan–abr/2026 e decisão da diretoria de 20/01/2026); CanalEnergia (prorrogação da suspensão, 13/05/2026); Volt Robotics (estimativa de perdas de 2025); ONS; Delfos Energy (conceito de constrained-off e Resolução ANEEL 927/2021); Cortez Pimentel Advogados; Agência iNFRA (posição do MME).
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-19