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Um ataque de drone em janeiro parou o ramal sul do Druzhba e desencadeou meses de crise entre Kiev, Bratislava e Budapeste.
Em 27 de janeiro de 2026, um ataque de drone danificou gravemente a infraestrutura do oleoduto Druzhba nas proximidades do polo de Brody, no oeste da Ucrânia. O ramal sul do duto — que leva petróleo russo a Hungria e Eslováquia — parou. O que se seguiu, até a normalização em 23 de abril, foi menos uma crise energética e mais uma crise diplomática com o petróleo como moeda.
A vulnerabilidade eslovaca é estrutural. O país depende quase inteiramente de uma única refinaria, a Slovnaft, configurada especificamente para processar petróleo russo. Refinarias não são intercambiáveis: a calibragem para determinado tipo de cru envolve unidades de dessulfurização, catalisadores e arranjos de destilação dimensionados para uma composição específica. Trocar a fonte não é redirecionar um navio — é uma obra.
A resposta de Bratislava foi de outra natureza. O primeiro-ministro Robert Fico suspendeu os fornecimentos emergenciais de eletricidade à Ucrânia, condicionando a retomada à restauração do trânsito de petróleo. Energia contra energia.
Do lado húngaro, a alavanca foi outra: Budapeste manteve um veto sobre um empréstimo da União Europeia à Ucrânia, e só o retirou depois que Kiev reparou o trecho danificado do duto. O episódio expôs com clareza incomum como a arquitetura decisória da UE — que exige unanimidade em matérias de política externa e financiamento — transforma qualquer Estado-membro dependente de uma infraestrutura específica em detentor de poder de veto sobre a política do bloco inteiro.
Kiev sustenta que não pode ser obrigada a garantir o fluxo de petróleo que financia a máquina de guerra do país que a invade, e que a infraestrutura em seu território é alvo legítimo de um conflito que não escolheu.
Budapeste e Bratislava argumentam que não escolheram sua geografia nem a herança de dutos construídos na era soviética, e que arcar sozinhas com o custo de uma reconversão energética acelerada — em países sem litoral e sem terminais próprios de importação — é uma penalidade desproporcional.
Bruxelas, no meio, defende a redução da dependência russa como objetivo estratégico, mas depende do consenso desses mesmos governos para financiar a Ucrânia.
As três posições são internamente coerentes. É exatamente por isso que o impasse durou quase três meses.
O fluxo foi restabelecido, o veto foi retirado, o empréstimo saiu. O que não voltou ao lugar foi a confiança: o episódio deixou deterioração duradoura nas relações bilaterais entre os governos eslovaco e ucraniano.
A lição é generalizável e vale muito além do Danúbio. Infraestrutura de energia construída em outra ordem geopolítica não desaparece quando a ordem muda — ela permanece no solo, criando dependências que sobrevivem às alianças que as originaram. Países que hoje assinam contratos de longo prazo de fornecimento energético com base em cálculos comerciais estão, simultaneamente, escrevendo restrições à sua própria política externa futura. É uma conta que raramente aparece na planilha do investimento.
Fonte: Al Jazeera
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-27