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Uma tendência que nasceu no TikTok pregando usar, consertar e reaproveitar chega ao Brasil, onde 54% começaram 2026 endividados e 76% querem cortar gastos. O que muda e um passo a passo prático.
Nos últimos meses, uma imagem se repete nas redes: alguém abre o armário e mostra a mesma jaqueta de cinco anos atrás, o pote de creme raspado até o fim, o celular com a tela trincada que ainda funciona. Não é falta de dinheiro exibida por vergonha. É orgulho. A cena tem nome — "underconsumption core" — e virou um dos movimentos de comportamento mais comentados do momento.
O termo nasceu no TikTok no verão de 2024, no Hemisfério Norte, como reação direta à cultura de "haul": aqueles vídeos em que influenciadores despejam sacolas de compras na cama. O contramovimento prega o oposto — usar, consertar, reaproveitar e esvaziar o que já se tem antes de comprar de novo. Menos vitrine, mais vida real.
Até aqui, poderia soar como mais uma estética passageira da internet. O que muda a conversa é o pano de fundo econômico brasileiro em que ela aterrissa.
Uma pesquisa da Neogrid em parceria com o Opinion Box, divulgada em 26 de maio de 2026 com mais de 1,2 mil brasileiros responsáveis pelas compras do lar, encontrou um retrato duro: 54% começaram o ano com alguma dívida e apenas 25% declararam ter dinheiro guardado. Entre os endividados, 15% admitiram não saber como vão quitar o que devem.
O mesmo levantamento mostra para onde a corda está sendo esticada: 76% dos entrevistados pretendem cortar custos ao longo de 2026 e 69% planejam segurar as compras por impulso. Ou seja, aquilo que lá fora é tendência de estilo, aqui é resposta a uma conta que não fecha.
É nesse ponto que vale separar o fato da moda. Consumir menos, reaproveitar e consertar não são invenções de aplicativo — são práticas antigas das famílias trabalhadoras, que agora ganharam filtro e trilha sonora. Críticos do movimento chamam parte disso de "cosplay de pobreza": gente com folga no bolso encenando frugalidade por estética, enquanto para milhões é simplesmente o mês.
A camada mais interessante, porém, é o que está em jogo por baixo. Cada real que deixa de ir para uma compra por impulso é um real que pode virar reserva, quitação de dívida ou fôlego no fim do mês. A pesquisa mostra que a intenção existe — o desafio é transformar vontade em método, antes que o próximo boleto reorganize as prioridades.
Para quem quer sair da inspiração e ir para a prática, alguns passos concretos ajudam a puxar o consumo para baixo sem virar sofrimento:
1. Faça o inventário do que já existe. Antes de comprar, olhe despensa, armário e gaveta de remédios. Boa parte do que se recompra por hábito já está em casa, esquecido no fundo.
2. Institua a regra das 48 horas. Diante de uma compra não essencial, espere dois dias. A urgência quase sempre passa — e o dinheiro fica.
3. Esvazie antes de repor. Termine o shampoo, o feijão, o caderno, antes de comprar o próximo. Estoque parado é dinheiro parado.
4. Conserte antes de descartar. Uma costura, uma troca de bateria ou um conserto simples costumam custar uma fração do produto novo.
5. Some os "pequenos vazamentos". Assinaturas esquecidas, entregas por aplicativo e cafés fora de casa parecem baratos isolados; no mês, viram um boleto inteiro.
O ganho não é só financeiro. Reduzir o volume de compras diminui descarte, alivia a pressão de estar sempre atualizado e, para muita gente, devolve uma sensação rara nos tempos de propaganda infinita: a de que já se tem o suficiente.
Vale um alerta honesto: comprar menos não resolve, sozinho, um orçamento que não fecha por renda insuficiente ou juros altos. O consumo enxuto é uma ferramenta poderosa de organização, não uma cura para todos os males — e este texto é informativo, não substitui a orientação de um profissional de finanças para o seu caso.
No fim, a tendência que veio de fora só pegou aqui porque encontrou terreno preparado. O brasileiro de 2026 não está aderindo a uma estética; está reaprendendo, por necessidade, uma lição que a propaganda passou décadas tentando fazer esquecer — que a coisa mais cara costuma ser aquela que a gente compra sem precisar.
Fontes: Pesquisa Neogrid/Opinion Box (divulgada em 26/05/2026, com mais de 1,2 mil brasileiros responsáveis pelas compras do lar); verbete "Underconsumption core" (Wikipedia) e cobertura sobre a origem do movimento no TikTok em 2024.
Redação Rede Global de Comunicação — 2026-07-26